O que os dados sobre desigualdade nos dizem sobre o Brasil de 2026
Novos relatórios mostram avanços reais, mas também contradições que o otimismo fácil tende a esconder.
O Brasil melhorou. Isso é factual. Os dados do IBGE divulgados em maio mostram que o índice de Gini — principal medida de desigualdade de renda — caiu pelo terceiro ano consecutivo, chegando ao menor patamar desde 2015. A proporção de brasileiros em situação de pobreza extrema recuou de 8,9% para 6,2% entre 2023 e 2025.
Mas os números agregados escondem contradições que merecem atenção. A queda na desigualdade de renda não foi acompanhada por redução equivalente na desigualdade de patrimônio. O 1% mais rico do país ainda detém mais riqueza do que os 50% mais pobres somados — e essa proporção praticamente não mudou na última década.
Há também uma dimensão geográfica que os dados nacionais tendem a suavizar. Enquanto o Sudeste e o Sul registraram melhoras consistentes, o Norte e o Nordeste avançaram em ritmo mais lento. Em estados como Maranhão e Pará, a proporção de pessoas em pobreza extrema ainda supera 15%.
A pesquisadora Marina Szabo, que acompanha esses dados há anos, chama atenção para outro fenômeno: 'Estamos vendo uma classe média que saiu da pobreza mas permanece extremamente vulnerável. Um problema de saúde, uma demissão, uma crise climática — qualquer choque pode empurrar essas famílias de volta para baixo da linha de pobreza.'
O desafio para os próximos anos não é apenas continuar reduzindo a pobreza, mas construir mecanismos que tornem essa redução permanente. Programas de transferência de renda são eficazes no curto prazo, mas precisam ser complementados por investimentos em educação, saúde e infraestrutura que criem oportunidades sustentáveis.