A reindustrialização brasileira: promessa, realidade e os obstáculos que ninguém quer nomear
O debate sobre neoindustrialização voltou ao centro da agenda econômica, mas as condições estruturais ainda são desfavoráveis.
A palavra 'reindustrialização' voltou a circular nos corredores do Ministério da Fazenda e nas páginas dos jornais econômicos com uma frequência que não se via desde os anos 1990. O contexto é diferente — o mundo mudou, as cadeias produtivas globais se reorganizaram, a transição energética criou novas demandas — mas os obstáculos estruturais que historicamente travaram o desenvolvimento industrial brasileiro permanecem surpreendentemente familiares.
O custo Brasil é o elefante na sala. Carga tributária que representa 33% do PIB, infraestrutura logística deficiente, burocracia que transforma processos simples em maratonas administrativas. Esses problemas não são novos — são denunciados há décadas — mas a velocidade das reformas necessárias para endereçá-los continua aquém do que o momento exige.
Há, no entanto, razões para um otimismo cauteloso. O Brasil tem vantagens comparativas reais que se tornaram mais valiosas no novo contexto global: abundância de energia renovável, matriz elétrica predominantemente limpa, reservas minerais estratégicas para a transição energética e uma base agroindustrial que é referência mundial.
O economista Carlos Lessa, professor da UFRJ, argumenta que o país está diante de uma janela de oportunidade que pode não se repetir. 'A demanda global por lítio, níquel, cobre e terras raras vai crescer exponencialmente nas próximas décadas. O Brasil tem todos esses minerais. A questão é se vamos exportá-los como commodities ou se vamos agregar valor aqui.'
A resposta a essa pergunta depende de escolhas políticas que vão além da economia. Depende de uma visão de longo prazo que transcenda ciclos eleitorais, de investimento em educação técnica e científica, e de uma capacidade de diálogo entre governo, setor privado e academia que o Brasil historicamente tem dificuldade de sustentar.